Atualizado em -
Um longo caminho pela frente
Não havia sido um dia como os outros.
Um sorriso iluminou seu rosto, e ele ousou sentar-se à entrada de sua morada -- uma caverna úmida e escura --, parcamente aquecido por uma pequena e crepitante fogueira. Cumpria a vigília, para proteger a família do possível contra-ataque dos animais. Era razoável pensar que pudesse haver um revide. Pelo menos, é o que ele faria, caso tivessem atacado os seus como ele o havia feito com aqueles javalis. Num lampejo de raiva, lembrou-se de sua própria perda, mas logo a afastou de sua mente.
Normalmente, àquela hora, costumava postar-se de pé; naquele dia, no entanto, a certeza de que as Forças estavam do seu lado davam-lhe a tranqüilidade para aguardar sentado a passagem da noite. Uma brisa suave acariciava seus cabelos. Seu pai devia estar orgulhoso.
Já podia até ver, em sua mente, o registro que faria quando o Sol nascesse. O mais belo deles, estava convencido. Guardando os javalis em sua parede, honrando-os como os adversários formidáveis que eram, as Forças certamente aplacariam a ira dos animais e ajudariam a proteger os seus.
Esse era o jeito. Seu pai o havia ensinado. "As Forças desenham animais no teto do mundo, para protegê-los e honrá-los", a voz ecoou na mente, como se o pai ainda estivesse lá. Não estava. Há muito as Forças haviam decidido levá-lo embora. Entrou na mata um dia e não voltou mais. Ele esperou. Esperou. Esperou. Então desenhou o pai na parede. Estivesse lá, nunca teria permitido.
Olhou para o teto do mundo, procurou seu pai. Viu muitas figuras guardadas no céu. Os pequenos pontos brilhantes se juntavam em linhas, e as linhas formavam todo tipo de criatura. Por um instante, pensou tê-lo visto, lança em punho, vistoso. Um segundo depois, a imagem se desfez. O teto do mundo era perturbador.
Pensou em parar de olhar. Não conseguiu. Reclinou-se levemente, como que para ajeitar o pescoço e ganhar uma visão mais completa do teto do mundo. A vastidão acima dele parecia emudecer os sons que vinham da relva próxima. Perdido entre os pontos luminosos, perguntou-se por que o teto do mundo era tão diferente do teto de sua casa. Ele, como os outros antes dele, guardava seus animais e parentes em registros na parede. Mas nada que ele já tivesse visto se igualava ao teto do mundo.
Levantou-se, virou na direção do horizonte, tentando enxergar por sobre as árvores. Será que, se caminhasse muito, poderia encontrar a parede do mundo? Fez que não com a cabeça. Duvidava. Havia algo de inatingível naquela escuridão dominadora. Quanto mais ele olhava, mais se sentia pequeno. Mais do que ensiná-los, as Forças devem ter criado aquilo para provocar os homens. Intrigá-los. Chamá-los.
Voltou a sentar-se, braços apoiados sobre os joelhos, semi-dobrados, pés apontados para frente, quase totalmente colados ao chão. Olhou para cima. E viu. Em meio às incontáveis luzes do teto do mundo, uma de um brilho diferente, especial. Vivo. Agressivo até. Era vermelha.
Havia começado a observar com mais cuidado o teto do mundo depois que seu pai havia partido. Tinha tempo de sobra durante as vigílias -- isso quando o teto não estava baixo e molhado. Quando estava, não era possível ver as luzes. Às vezes uma delas caía, sempre seguida por um grande estrondo. Isso sim era assustador -- a revolta das Forças. Escondiam as figuras do teto do mundo e atiravam luzes no chão. Depois lavavam o mundo, como que para limpá-lo do que quer que estivesse desagradando. Quando seu pai não voltou, as Forças estavam felizes; as luzes estavam todas lá. E também nos dias que se passaram. Ficara revoltado.
Com o tempo, pensou que assim o era porque as Forças haviam gravado seu pai no teto do mundo, honrando-o como ele merecia. Desde então, procura por ele lá. Nunca falou à sua mãe ou às meninas sobre sua busca. Era um projeto secreto. Quase o encontrou, uma ou duas vezes. Pensou em registrar a posição das luzes na parede de sua casa, mas temeu pela reação das Forças. Será que ficariam irritadas com a pobre imitação? Por via das dúvidas, preferiu guardá-las mentalmente. Foi se familiarizando com elas. Com o tempo, algumas figuras começaram a aparecer mais do que outras. Seu pai, no entanto, continuava perdido.
Voltou a fitar a luz vermelha, bem no topo do teto. Nunca havia percebido sua existência, o que o intrigou. Com aquele brilho, ele certamente a teria notado antes. Além do mais, tinha certeza de que aquela luz vermelha não pertencia àquele grupo de luzes particular. Seria uma nova luz, recém-criada pelas Forças? Decidiu que iria prestar atenção nela, para ver se acompanharia o traçado das outras luzes, que atravessavam todas as noites o teto, sempre na mesma direção.
Não podia parar de encará-la. O vermelho evocava sangue. Um frio na espinha correu com seu próprio pensamento. Estremeceu. Seria um aviso das Forças para ele? Será que o estavam louvando pela formidável caçada, ou alertando para o perigo de um contra-golpe iminente? Pensou em entrar em acordar a mãe e as meninas. Sentiu o coração apertado. O que aquela luz fazia no céu? Ele precisava saber.
Ergueu-se novamente, de súbito. Sentiu uma leve vertigem, logo se recuperou. Aguçou o olhar na direção da relva. Por um momento, pensou ter ouvido passos. Depois, convenceu-se de que eram apenas os grilos, misturados ao barulho da madeira se retorcendo em sua fogueira. Precisava se acalmar, já estava a imaginar coisas. O que o fez lembrar: adorava imaginar coisas. Divagar. Um novo sorriso, e a paz retornou à sua alma. As Forças estavam do seu lado naquele dia, fez questão de dizer a si mesmo, mentalmente.
Sereno, mas atento, seguiu em sua vigília. Ocasionalmente, olhava para cima. A luz de sangue ainda estava lá, acompanhando as demais em sua travessia do teto do mundo. Por um instante, pensou tê-la visto numa posição ligeiramente diferente. Depois mudou de idéia. Decidiu voltar a se sentar. O fogo ao seu lado já estava quase apagando, e a luz de sangue já estava quase tocando as árvores mais altas, no horizonte. Logo, a Grande Luz voltaria ao teto do mundo, e ele poderia descansar.
Aqueceu as mãos junto à fogueira, apertou-se em sua manta de pele. Encolheu-se todo e duelou com seus próprios olhos -- um luta árdua, lenta, estudada. Perdeu. E sonhou. Sonhou com a luz de sangue. Ela crescia no céu, até se transformar numa grande esfera avermelhada. Num salto, ele partiu em sua direção -- voava.
Conforme se aproximava, a luz não era mais uma luz. Era um lugar. Um lugar vermelho. Viu seus pés marcarem um solo esfarelado e macio. Tirou o pé e viu sua pegada, delineada com perfeição na lisa superfície empoeirada. Ergueu a cabeça, olhou na direção do horizonte e viu um vulto. Não podia distinguir a figura, mas em seu coração sabia quem era. Havia encontrado seu pai. De um modo mágico, inexplicável, compreendeu. Na desafiadora e misteriosa areia da luz vermelha do teto do mundo, agora ele sabia, repousavam suas origens e o seu destino.